Parto de sul-mato-grossense que mora em Canoas é marcado pelo caos em cidade inundada e sem água corrente

Mirela deu à luz há apenas 5 dias em cidade gaúcha que está 80% debaixo d'água

| MIDIAMAX/LIANA FEITOSA


Mirela com Gael ao lado da mãe, Wanda. (Montagem com imagem de Canoas - Gustavo Mansur, Palácio Paratini)

O Dia das Mães de 2024 da advogada campo-grandense Mirela Cabral, de 34 anos, nunca será esquecido. Morando há três anos na cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul, ela deu à luz há apenas 5 dias. Ao lado da mãe, Walda Gomes, de 56 anos, que atravessou MS até o RS enquanto o estado gaúcho era tomado pelas águas, Mirela relata os dias intensos que elas têm vivido.

Com uma mistura de alegria e pesar, ela ainda processa o que tem sido a maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, que vem enfrentando chuvas e enchentes desde o dia 27 de abril.

Apesar de ter nascido na terça-feira (7), o primeiro banho do bebê Gael foi dado somente na sexta-feira (10). “Nem na maternidade tinha água, então a orientação era que não desse banho nele. Na sexta-feira, a gente conseguiu comprar um galão de água e eu higienizei e dei banho nele', relata Mirela.

Com 80% da cidade debaixo d’água, a advogada conta que faz parte dos 20% da população de Canoas que não precisou deixar às pressas o local onde mora, apesar de esses pontos também ficarem sem água e, algumas vezes, sem energia.

“Nosso bairro fica num lugar alto, mas só depois de 6 dias que a água retornou, e oscilando bastante. Aqui também começou a chover novamente, então a energia também oscilou. A gente está em casa, bem, mas com medo. Confortáveis, comparados a outras pessoas, porque estamos num lugar seco, mas ainda sofrendo com tudo que está acontecendo', compartilha a mãe.

Falta d’água 

“Água potável era para o básico do básico, só para tomar (ingerir) mesmo e mais nada. Quando a gente via alguma notícia ou mensagem em grupo de WhatsApp sobre onde estava vendendo água, a gente corria e comprava. Chegou um ponto que nem água para comprar tinha. Aí foi quando entrou a solidariedade de algumas empresas e moradores que possuem postos artesianos', afirma.

Esses locais começaram a liberar água para a população, em vasilhames. Assim, quando acabou a água para comprar, os abastecimentos passaram a ser nesses locais.

“Isso só para tomar. Para banho, aqui no meu condomínio, o síndico liberou que nós pegássemos água da piscina e de alguns chafarizes que têm espalhados pelo condomínio. Então, durante o dia, para banho ou para a necessidade mais básica, a gente descia e pegava com balde na piscina do condomínio, isso bem restrito também porque poderia acabar e todo mundo ficar sem', detalha Mirela. 

Banho para o parto com água da piscina

“Eu fui para o parto ter meu filho com o cabelo lavado com água da piscina porque não tinha outra opção, não tinha como eu usar a água potável para isso. Eu não sabia quando a água ia voltar', completa a advogada.

O nascimento do pequeno Gael foi via cesariana, o que aumenta a apreensão de Mirela. “Muito difícil a higienização, eu tinha muito medo. De terça para hoje, assim, foi um pesadelo. Agora normalizou, voltou [a subir água] para a caixa d’água, mas aí os vizinhos no desespero, né, de ficarem sem novamente, acabam utilizando dentro de casa, fazendo algum estoque, e aí acaba novamente', relata a campo-grandense.

Peregrinação da mãe para ver o neto

Apesar de toda angústia e preocupação, Mirela faz questão de frisar o quanto se sente privilegiada por estar em condições mínimas de bem-estar, não ter perdido tudo, como muitos amigos, familiares de seu esposo e pessoas conhecidas; e ainda ter a companhia da mãe dela nos primeiros dias de vida do Gael.

Como está morando no estado gaúcho, a família planejou receber a mãe de Mirela, a Walda, para acompanhar o nascimento do neto. Com o parto marcado para o dia 7 de maio, a passagem foi comprada para o dia 4, três dias antes do nascimento. No entanto, no dia 5 o aeroporto de Porto Alegre fechou, complicando os planos da família.

“Em questão de dois dias o cenário todo mudou. O que eram chuvas isoladas, alagamento isolado, virou uma verdadeira tragédia. Entre o dia 3 e o dia 5, virou uma catástrofe jamais vista, cenas mesmo de horror', relata Mirela.

Mesmo em pânico, no dia 6, um dia antes do parto, ela decidiu olhar de madrugada se conseguia algum voo para a mãe, e viu que tinha aberto uma opção com conexão em São Paulo e destino final em Caxias do Sul, cidade distante cerca de 2 horas de viagem de Canoas, que foi muito atingida pelas enchentes, mas que ainda estava operando até aquele momento.

“Então o que eu fiz? No desespero comprei a passagem da minha mãe, no dia 6 de madrugada, para ela chegar em Caxias do Sul e de Caxias do Sul ela vir pra Canoas. Achei que ali tinham acabado os meus problemas, 12 horas antes do parto minha mãe ia conseguir chegar aqui. Só que quando ela chegou em Caxias do Sul, ela não conseguia vir pra Canoas porque todas as estradas estavam inundadas', detalha Mirela.

Então, já era dia 7. A médica dizia para Mirela que ela precisava entrar no centro cirúrgico e que não dava para esperar a chegada de Wanda. 

“Minha última ligação pra minha mãe foi: ‘mãe, chega aqui, dá um jeito de chegar’, e fui para a sala de parto e não tive mais notícias da minha mãe. Quando saí do pós-operatório, chegou a notícia: ‘sua mãe conseguiu chegar. Ela não conseguiu assistir teu parto, mas ela está vindo para ficar contigo e com o teu filho. Aí foi um alívio', lembra a advogada.

A viagem entre Caxias do Sul e Canoas, que deveria durar no máximo 2 horas, demorou 7 longas horas. “No fim, ficou tudo bem', completa Mirela.

Maior presente de Dia das Mães

“Eu agradeço muito a Deus porque, em meio a tudo isso, ele fez um verdadeiro milagre na minha vida, que foi ter a minha mãe nesse momento, ainda mais na semana de Dia das Mães. O meu maior presente de Dia das Mães é ela estar aqui comigo, apesar de tudo isso. Esse é o maior gesto de amor que eu poderia ter recebido e um dos maiores gestos que o meu filho recebeu no meio desse caos', finaliza, emocionada, a advogada.

Quer receber notícias do Site MS NEWS via WhatsApp? Mande uma mensagem com seu nome para (67) 9.9605-4139 e se cadastre gratuitamente!


ÚLTIMAS NOTÍCIAS





























































PUBLICIDADE
PUBLICIDADE