Um mês após receber polilaminina, jovem tetraplégico corta bolo e escreve
Medicamento está em fase de estudos e pode ter contribuído para a recuperação do paciente
| CASSIA MODENA / CAMPO GRANDE NEWS
Tetraplégico após ser atingido por um tiro acidental no pescoço, o sul-mato-grossense Luiz Otávio Santos Nunez, 19 anos, segue recuperando movimentos depois de receber uma dose experimental do medicamento polilaminina, que está em fase de estudos e é promissor para regenerar a medula espinhal que sofreu lesão grave, como no caso do jovem.
A cirurgia que injetou uma dose ocorreu em 20 de janeiro deste ano, por ordem judicial. Nos últimos 30 dias, a mãe, Viviane Goreti Ponciano dos Santos, vem registrando em vídeos avanços que alimentam a esperança de que Luiz volte a viver como antes.
Imagens compartilhadas nas redes sociais o mostram cortando e comendo bolo com uma colher, pegando frutas com garfo e segurando um copo para beber água com canudo. O rapaz também foi filmado escrevendo o nome em uma pequena lousa.
Luiz havia recuperado parte dos movimentos das mãos antes de receber o medicamento, mas não conseguia pegar objetos e fazer gestos mais precisos. A família e a equipe que cuida dele ainda não comentaram sobre possíveis evoluções relacionadas às pernas e pés. O paciente segue acamado, em casa.
Em entrevista ao Campo Grande News concedida sete dias após a operação, o jovem relatou os primeiros sinais de melhora em uma das coxas. “Fazendo força com a minha mente, eu consegui fazer aquele movimento. Por mais que eu não sinta, mandei o comando para aquilo acontecer', comentou. Espasmos naquela região do corpo foram outro avanço percebido. Na mesma data, o médico que participou da operação e acompanha o tratamento de Luiz, Wolnei Zeviani, confirmou que havia algo diferente. 'Eu coloquei a mão e vi que ele tem um padrão de contração muscular, mas que ainda não desenvolve movimento. Agora a gente precisa dar tempo ao tempo', falou.
O paciente, que é de Fátima do Sul e atualmente mora em Campo Grande, passará por uma avaliação médica sobre os resultados do primeiro mês pós-cirurgia na próxima semana.
O medicamento - Polilaminina vem da junção de poli (muitos, no idioma grego) + laminina, uma proteína encontrada nas células-tronco e em todo o corpo humano. A substância foi descoberta a partir de uma pesquisa iniciada há quase 25 anos na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) sob a liderança da professora Tatiana Sampaio.
Em parceria com a instituição, o laboratório Cristália requer o registro do medicamento junto à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O processo está em andamento. Na atual fase de estudos, a polilaminina será testada em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos. Por ainda não ser um medicamento liberado, é preciso entrar com pedido judicial para conseguir autorização para uma cirurgia experimental.
Intervalo entre acidente e uso - A aplicação de uma dose é indicada em até 72 horas após a lesão. Luiz, no entanto, é vítima de um disparo feito acidentalmente em 4 de outubro do ano passado por um colega, a caminho de uma pescaria. São mais de quatro meses de intervalo.
Quando esteve no Hospital Militar de Campo Grande, onde a cirurgia ocorreu, a equipe do Rio de Janeiro responsável pelo tratamento defendeu que resultados em quadros como esse são plausíveis porque a lesão ainda estava na fase aguda.
Antes de receber a dose, o jovem passou por mais de uma cirurgia para recuperação e já havia iniciado sessões de fisioterapia. A expectativa é que o medicamento em fase de estudos ajude a acelerar a melhora e retomar movimentos em todos os membros.
Na foto abaixo, equipe que participou da cirurgia, da esq. para a dir.: médicos Wolnei Zeviani, Bruno Cortez e Olavo Franco e o tenente-coronel André Antunes Mascarenhas, da direção do Hospital Militar (Foto: Marcos Maluf/Arquivo)
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