Seis dos 10 agrotóxicos mais vendidos em MS são proibidos na União Europeia
Levantamento aponta uso de substâncias sem autorização no bloco e acende alerta sobre barreiras comerciais
| ANDERSON VIEGAS / CAMPO GRANDE NEWS
Das dez substâncias químicas mais comercializadas em Mato Grosso do Sul em agrotóxicos usados no controle de pragas e doenças na agropecuária, seis não têm autorização de uso na União Europeia.
É o que aponta levantamento feito pelo Campo Grande News com base no cruzamento dos dados de comercialização de agrotóxicos divulgados pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) com informações reunidas em artigo científico sobre o tema publicado na Revista da Anpege (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia).
Nesta semana, a Folha de S.Paulo informou que o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) recebeu um mapeamento sobre o uso de agrotóxicos em produtos exportados pelo Brasil para a Europa. O levantamento apontou a presença, no país, de 147 ingredientes ativos com uso proibido no bloco europeu.
O cenário acende um alerta no setor produtivo diante do endurecimento das regras sanitárias no mercado europeu e pode ampliar a vulnerabilidade do Brasil à criação de novas barreiras comerciais contra produtos brasileiros.
No artigo Agrotóxicos no Brasil: cenários de políticas sinistras, publicado em 2024, pesquisadores e especialistas de instituições de referência do país nas áreas de saúde pública, toxicologia, geografia agrária, agronomia e direito ambiental analisam o cenário nacional sobre o uso desses produtos.
Assinam o artigo a engenheira química Sonia Corina Hess, professora titular aposentada da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e doutora em Química; a geógrafa Larissa Mies Bombardi, professora doutora da USP (Universidade de São Paulo); o agrônomo Rubens Onofre Nodari, professor titular da UFSC e doutor em Genética pela University of California, Davis; a enfermeira e pesquisadora Mariana Rosa Soares, doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso); o pesquisador em saúde pública Luiz Cláudio Meirelles, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz); a jurista Cíntia Teresinha Burhalde Mua, doutoranda em Direito pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul); e a médica Lia Giraldo da Silva Augusto, pesquisadora titular aposentada da Fiocruz.
Segundo o Ibama, em 2024 foram comercializadas em Mato Grosso do Sul 50.022,33 toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos químicos formulados. O Estado foi o nono maior consumidor nacional desses produtos, representando 5,51% das 907.564,67 toneladas vendidas no país.
No ano, as moléculas mais comercializadas no Estado foram, conforme o Ibama: Glifosato (16.086,24 toneladas), Acefato (5.501,04 toneladas), Clorotalonil (2.829,68 toneladas), 2,4-D (2.607,02 toneladas), Atrazina (2.540,28 toneladas), Mancozebe (2.381,85 toneladas), Cletodim (1.248,30 toneladas), Triclopir-butotílico (1.242,12 toneladas), Metomil (1.010,19 toneladas) e Glufosinato – sal de amônio (994,96 toneladas).
Cruzando esses dados com as informações apresentadas no artigo, seis ingredientes ativos do top 10 de Mato Grosso do Sul têm uso proibido na Europa: Acefato (2º no ranking estadual de comercialização), Clorotalonil (3º), Atrazina (5º), Mancozebe (6º), Metomil (9º) e Glufosinato de amônio (10º).
O artigo aponta que grande parte dos agrotóxicos registrados no país é formada por moléculas antigas, com mais de 20 anos de uso, que não passaram por atualização, em contraste com a realidade de outros países, que proibiram essas substâncias por apresentarem alta toxicidade e por afetarem sistemas e processos vitais da saúde humana e do meio ambiente.
Entre os ingredientes ativos autorizados no Brasil e sem uso autorizado na União Europeia em 2024, há substâncias com mais de 40 produtos registrados no Agrofit (Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários), do Mapa.
Com base em dados do Mapa, da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os pesquisadores apontam que, em janeiro de 2024, havia 548 ingredientes ativos de agrotóxicos com uso autorizado no Brasil. Desse total, 334 (60,9%) eram produtos químicos e 214 (39,1%), microbiológicos. Entre os químicos, 196 (58,7%), número ainda maior que o apontado pela Folha de S.Paulo, não tinham uso autorizado na União Europeia em 2024. Desses, 167 (85,2%) já possuíam registro no Brasil antes de 2003, e 68 eram registrados no país desde 1985.
O estudo destaca ainda que a legislação brasileira permite a manutenção do registro desses produtos por tempo indeterminado, sem exigência de revisão periódica obrigatória.
Impactos à saúde
Embora o estudo não detalhe individualmente as razões do banimento de cada ingrediente ativo na Europa, os autores afirmam que essas substâncias deixaram de ser autorizadas naquele mercado por critérios relacionados à alta toxicidade e aos impactos potenciais sobre a saúde humana e o meio ambiente.
Outro trabalho científico internacional, entretanto, detalha os impactos de alguns desses agrotóxicos proibidos na Europa e ainda em uso no Brasil e em Mato Grosso do Sul.
Publicado em 2024 na revista científica Clinical and Experimental Emergency Medicine, o estudo A narrative review of contemporary lethal pesticides: unveiling the ongoing threat of pesticide poisoning (Uma revisão narrativa sobre pesticidas letais contemporâneos: revelando a ameaça contínua do envenenamento por pesticidas) foi desenvolvido pelos médicos Sangchun Choi, Gi Woon Kim e Hoon Lim, pesquisadores do Departamento de Medicina de Emergência do Soonchunhyang University Bucheon Hospital, ligado à Soonchunhyang University College of Medicine, na Coreia do Sul.
A pesquisa revisa evidências clínicas sobre agrotóxicos considerados altamente letais e aponta que, apesar das restrições adotadas em vários países, diferentes moléculas continuam associadas a casos graves de intoxicação aguda e morte. Os autores analisam os mecanismos de toxicidade desses compostos, os impactos no organismo humano e a evolução clínica dos pacientes intoxicados, destacando os riscos à saúde pública relacionados à exposição a esses produtos.
O trabalho cita, por exemplo, os efeitos do Glufosinato, décimo ingrediente ativo mais vendido em Mato Grosso do Sul. O estudo descreve a substância como um herbicida utilizado principalmente no controle de plantas daninhas e vegetação indesejada em áreas agrícolas, empregado no manejo de lavouras e na limpeza de áreas antes ou durante o cultivo.
Segundo os autores, a exposição ao Glufosinato de amônio pode provocar sintomas como náusea, vômito, diarreia, dor abdominal, tontura e dor de cabeça, além de dificuldade respiratória. Em situações mais graves, o estudo relata ocorrência de convulsões, perda de consciência, apneia, alterações neurológicas importantes, aumento da concentração de amônia no sangue (hiperamonemia) e lesões cerebrais. Os pesquisadores também apontam que alguns pacientes intoxicados podem desenvolver distúrbios cognitivos e neurológicos persistentes mesmo após a fase aguda da intoxicação. Nos casos mais severos, a evolução clínica pode incluir coma, parada respiratória e sequelas neurológicas prolongadas.
O trabalho cita também os efeitos do Metomil, nono ingrediente ativo mais comercializado em Mato Grosso do Sul. O estudo descreve a substância como um inseticida carbamato altamente tóxico, utilizado no controle de uma ampla variedade de insetos em lavouras, hortaliças e plantas ornamentais. Segundo os autores, a exposição ao Metomil pode provocar sintomas como diarreia, vômito, náusea, salivação excessiva, lacrimejamento, suor intenso, falta de ar, dor de cabeça, tontura, fraqueza muscular, tremores e confusão mental.
Em quadros de intoxicação moderada a grave, os pesquisadores relatam ocorrência de dificuldade respiratória, alteração do estado mental e queda de pressão arterial. O artigo destaca ainda que, em alguns casos, a evolução pode ser rápida após a exposição, exigindo monitoramento clínico imediato devido ao risco de agravamento do quadro.
No estudo brasileiro, os pesquisadores classificam como “absurda' a situação do uso, no Brasil, de produtos com substâncias proibidas na Europa, em razão dos conhecidos efeitos nocivos desses agrotóxicos à saúde humana.
O Campo Grande News entrou em contato com o Mapa e a Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) para obter posicionamento das instituições sobre o assunto, mas, até a mais recente atualização desta matéria, ainda não havia obtido retorno. O espaço segue aberto.
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