Vacina não é opinião: é proteção contra doenças que ainda ameaçam
Dia D é oportunidade para atualizar a caderneta e deixar preconceitos e desinformação no passado
| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS
Durante décadas, o Brasil foi reconhecido como uma referência mundial em vacinação. Doenças que matavam, deixavam crianças com sequelas ou provocavam epidemias praticamente desapareceram do cotidiano graças a uma combinação poderosa: ciência, campanhas públicas e adesão da população. A poliomielite talvez seja o exemplo mais emblemático. Gerações inteiras cresceram sem conhecer de perto o drama de crianças condenadas a viver com paralisias.
Esse patrimônio, porém, começou a ser colocado em risco.
A pandemia de Covid-19 trouxe, além da tragédia sanitária, uma onda de desinformação e desconfiança em relação às vacinas. O que deveria permanecer no terreno da ciência foi arrastado para disputas ideológicas, políticas e até partidárias. Mentiras ganharam velocidade nas redes sociais e algo tão elementar quanto proteger uma criança contra uma doença passou, inexplicavelmente, a ser tratado por alguns como questão de opinião.
As consequências permanecem.
Neste sábado, o Dia D de Vacinação oferece mais uma oportunidade para recuperar coberturas vacinais e, principalmente, recuperar uma cultura que o Brasil nunca deveria ter perdido: vacina é cuidado, prevenção e responsabilidade coletiva.
Estão disponíveis imunizantes contra doenças como poliomielite, sarampo, caxumba, rubéola, hepatites A e B, meningites, febre amarela, gripe, Covid-19, HPV, dengue, tuberculose, difteria, tétano, coqueluche, varicela e rotavírus.
Basta observar essa lista para perceber o tamanho do absurdo que representa transformar vacinação em batalha ideológica.
Estamos falando de doenças reais. Algumas podem matar. Outras deixam sequelas para toda a vida. Há aquelas que podem provocar surtos e voltar a circular justamente quando a cobertura vacinal cai . E existem vacinas, como a do HPV, capazes de ajudar a prevenir cânceres no futuro.
Ser contra vacina não torna ninguém mais livre. Apenas aumenta a vulnerabilidade individual e coletiva diante de doenças que a medicina aprendeu a prevenir.
Também existe uma falsa sensação de segurança provocada pelo próprio sucesso das campanhas de vacinação. Como muita gente nunca viu uma criança com poliomielite, um caso grave de difteria ou determinadas complicações do sarampo, pode imaginar que essas ameaças deixaram de existir por conta própria. Não deixaram. Muitas desapareceram de nossas casas justamente porque milhões de pessoas foram vacinadas.
Quando a vacinação diminui, abre-se novamente a porta que levou décadas para ser fechada.
Vacinar também não é apenas uma decisão individual. Há crianças pequenas, idosos, pessoas imunossuprimidas e outros grupos mais vulneráveis que dependem, em alguma medida, da proteção coletiva proporcionada por altas coberturas vacinais. É uma corrente de proteção na qual cada pessoa imunizada ajuda a reduzir a circulação de determinadas doenças.
É evidente que todo cidadão tem direito a perguntar, buscar informações sobre contraindicações e conversar com profissionais de saúde. Ciência não exige fé cega. Exige evidências. E justamente por isso dúvidas sobre vacinas devem ser respondidas por profissionais e instituições de saúde, e não por vídeos anônimos, correntes de WhatsApp ou teorias conspiratórias.
O Dia D deste sábado, portanto, precisa ser mais do que uma campanha para atualizar cadernetas. Deve servir para reconstruir a confiança na prevenção.
Se uma vacina segura e recomendada pode evitar sofrimento, internações, sequelas e mortes, recusá-la por preconceito ou desinformação não é demonstração de coragem ou independência. É correr um risco desnecessário.
A humanidade levou séculos para aprender a enfrentar algumas doenças. Seria um enorme retrocesso permitir que elas recuperassem espaço simplesmente porque, na era da informação, decidimos acreditar mais em boatos do que na ciência.
Vacina não deveria dividir a sociedade. Vacina existe justamente para protegê-la.
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