As bulanderas e as casas de madeira: a vida na formação de MS

| MáRIO SéRGIO LORENZETTO


O inicio do colonização do Mato Grosso do Sul em meados do século passado tem por lema a “cara e a coragem'. Paulistas, mineiros, gaúchos e nordestinos por aqui chegavam à beira da fome. Não havia apoio de espécie alguma dos governantes. Tinham de apelar para todos os meios de sobrevivência. As lavouras que colhiam tinham pouco valor. As longas distâncias e as dificuldades de escoamento ceifavam qualquer iniciativa. Não haviam estradas.

Casas sobre toco de canelinha. A canelinha é uma das maiores árvores de nossa região. Com 30 metros de altura, é magricela e de coloração cinzenta escura. Era com ela que o sertanejo dava inicio à construção de suas casas. Todas eram de alguma das muitas madeiras existentes, mas procuravam a canelinha para os alicerces. Como não existiam telhas de cerâmica, cobriam as casas com tabuinhas de cedro ou de laranjinha. As cercas, tanto na zona rural como nas pequenas cidades eram de lascas de cajarana, uma madeira avermelhada abundante. Também usavam para cercar as propriedades o pau-brasil. Os fogões eram a lenha, não existia o gás em botijão. A preferência para o fogo do lar era pelo espeteiro, que dava boa brasa e não fazia fumaça, além de ser cheiroso. Muito usada também era a cabreúva, que ia para o fogo e dava um “delicioso' chá de sua casca.

As farinheiras, conhecidas como bulanderas. Em muitas pequenas fazendas o cultivo de mandioca era obrigatório. Era a “salvação da lavoura'. Se negam a estudar o pequeno fazendeiro. Mas sabemos que em todas as cidades existiam muitas “bulanderas', apelido das farinheiras. Eram movidas pelos braços da família e por animais. Em um galpão, toscamente coberto de tabuinhas colocavam uma roda de grande circunferência, presa a um eixo vertical enorme, tudo em madeira. Os animais trabalhavam em circunferência, fazendo girar o eixo. Este, movia uma correia de couro cru, que, por sua vez, ralava as raízes da mandioca com pequenas serrilhas. Um grande número de mulheres e crianças trabalhavam nas bulanderas. O polvilho, por elas produzido, não dava grande lucro, mas era uma das raras opções econômicas. Com o tempo, desapareceram, mas tiveram papel significativo para a subsistência de milhares de sul-mato-grossenses. Dono de bulandera era empresário respeitado.

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