Quando o eleitor desiste da urna, a má política agradece e permanece no poder
A descrença não pode transformar a urna em território livre para políticos rejeitados pela sociedade
| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS
A indignação com a política tem razões de sobra. Corrupção, promessas esquecidas, privilégios, uso do cargo em benefício próprio e campanhas que tratam o eleitor como peça descartável alimentam um sentimento cada vez mais perigoso: o de que votar não adianta.
Em Mato Grosso do Sul, esse desencanto aparece nos números. No primeiro turno de 2022, mais de 440 mil eleitores deixaram de comparecer às urnas. Em 2018, haviam sido 398.287. Em apenas quatro anos, o contingente dos ausentes cresceu em mais de 40 mil pessoas.
No país, a dimensão foi ainda mais assustadora. No primeiro turno de 2022, 32,7 milhões de brasileiros não votaram, o equivalente a 20,95% do eleitorado. No segundo turno, foram 31,8 milhões. É como se uma população superior à de muitos países tivesse decidido ficar fora da escolha dos governantes.
O eleitor Rinaldo Amaral Duarte resumiu ao Campo Grande News um sentimento que certamente é compartilhado por muita gente: “É mentira demais. Todo mundo só pensa em dinheiro e a gente fica jogado às traças'.
A frase é dura, mas compreensível. Parte da classe política ajudou a construir essa desconfiança. Não se pode exigir entusiasmo de quem enfrenta hospitais lotados, escolas precárias, ruas esburacadas, impostos elevados e serviços públicos insuficientes enquanto assiste a autoridades acumularem salários, benefícios e privilégios.
O problema é que abandonar a eleição não pune os maus políticos. Muitas vezes, ajuda a elegê-los.
Quem não comparece entrega aos outros o poder de decidir. A ausência não cancela a eleição, não reduz mandatos nem impede a posse de quem recebeu votos. Apenas diminui o número de pessoas que participam da escolha. Com isso, grupos organizados, estruturas partidárias, cabos eleitorais e candidaturas sustentadas por máquinas poderosas passam a ter peso ainda maior no resultado.
A descrença produz, assim, um círculo perverso. O eleitor se decepciona, deixa de votar e abre espaço para que continuem no poder aqueles que provocaram a decepção. Depois, ao perceber que pouca coisa mudou, afasta-se ainda mais da política.
A multa pela ausência, que pode chegar a irrisórios R$ 3,51 por turno, está longe de ser capaz de estimular a participação. Para muita gente, é mais fácil pagar do que enfrentar filas, deslocamentos ou a difícil tarefa de escolher entre candidatos que não inspiram confiança. Mas o verdadeiro preço da ausência não está no boleto da Justiça Eleitoral. Está nos quatro anos seguintes.
Está na qualidade da saúde pública, da educação, da segurança e do transporte. Está nos impostos cobrados, no dinheiro desviado, nas obras abandonadas e nas leis aprovadas longe dos olhos da população.
Votar não significa acreditar cegamente em candidato. Significa pesquisar, comparar, eliminar os despreparados, desconfiar das promessas fáceis e cobrar depois da eleição. Se nenhum nome parece perfeito — e dificilmente será — cabe procurar aquele que reúne experiência, equilíbrio, honestidade e compromisso com o interesse público.
A revolta contra a política é legítima. A desistência, porém, beneficia quem prefere um eleitorado cansado, silencioso e distante. A urna pode não resolver todos os problemas, mas deixá-la vazia certamente não resolverá nenhum.
Quando o cidadão desiste de escolher, alguém escolhe por ele. E quase sempre são os mesmos grupos que já aprenderam a transformar a ausência da maioria em permanência no poder.
Quer receber notícias do Site MS NEWS via WhatsApp? Mande uma mensagem com seu nome para (67) 9.9605-4139 e se cadastre gratuitamente!












