Após Carlo Acutis, padre que é nome de rua por história em MS pode virar santo
João Crippa, que dá nome à rua de Campo Grande, ajudou a fundar escolas e igrejas na Capital
| ANAHI ZURUTUZA / CAMPO GRANDE NEWS
Depois de Campo Grande entrar para a história da Igreja Católica com o reconhecimento de um milagre atribuído a Carlo Acutis, Mato Grosso do Sul poderá ter outro nome ligado à santidade. Desta vez, o candidato é o padre salesiano João Crippa, religioso italiano que dedicou décadas à evangelização e à educação na Capital, morreu há 85 anos, virou nome de rua e autor de graças alcançadas pelos católicos.
A Arquidiocese Metropolitana de Campo Grande marcou para o dia 20 de outubro a abertura solene do inquérito diocesano para que seja proposta a beatificação do religioso. A cerimônia será realizada na Paróquia São José, no Centro da Capital, onde estão os restos mortais do sacerdote.
O procedimento representa uma das primeiras etapas da investigação da Igreja sobre a vida, as virtudes e a fama de santidade do religioso. Ainda não significa que ele tenha sido reconhecido como beato ou santo. Mas se for, será o segundo caso em Mato Grosso do Sul.
Em setembro de 2025, Carlo Acutis foi canonizado. O jovem italiano teve o primeiro milagre reconhecido pela Igreja a partir da cura de Matheus Vianna, ocorrida em Campo Grande, em 2013.
Quem foi João Crippa? – Nascido em 10 de outubro de 1861, na cidade de Asso, na região da Lombardia, norte da Itália, João Crippa era filho de Pietro Crippa e Fiorina Bucconi. Aos 24 anos, ingressou na vida salesiana, no Colégio São João Evangelista, em Turim, onde teve contato com Dom Bosco, fundador da congregação.
Sua chegada à América ocorreu entre 1888 e 1889, segundo os registros históricos. Em 1890, recebeu a veste religiosa no Uruguai e, quatro anos depois, em 17 de fevereiro de 1894, foi ordenado sacerdote.
Em junho daquele mesmo ano, começou sua atuação no então Mato Grosso, assumindo a Paróquia São Gonçalo do Porto, em Cuiabá. Também participou das missões salesianas junto aos indígenas Bororo em uma época em que o atual Mato Grosso do Sul ainda integrava o território mato-grossense.
A trajetória do padre foi registrada por Arnaldo Rodrigues Menecozi em biografia publicada pelo IHGMS (Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul), instituição que o homenageia como patrono da cadeira número 30.
Viagens a cavalo às escolas – Antes de se estabelecer em Campo Grande, João Crippa percorreu diferentes localidades do Mato Grosso. Segundo a biografia, viajava a cavalo por grandes distâncias, visitando povoados, famílias e comunidades que ainda não contavam com atendimento religioso.
Também atuou em Aquidauana e Miranda, sendo apontado pelo registro histórico como um dos primeiros responsáveis pelas paróquias dessas localidades.
Na Capital, seu trabalho ultrapassou as atividades religiosas. O sacerdote reuniu um grupo de mulheres e organizou uma comissão para viabilizar a criação do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, instituição que se tornaria uma referência na educação da cidade.
Em 1925, comprou os dois primeiros terrenos destinados à construção do Oratório São José, conhecido como Capelinha. O espaço funcionava como ponto de encontro religioso e também de atendimento à população mais pobre.
O trabalho desenvolvido no local incluía atividades educativas para crianças durante o dia e alfabetização de adultos à noite. Aos domingos, o oratório recebia jovens para celebrações religiosas, catequese e momentos de lazer.
O padre também defendia a construção de uma igreja maior dedicada a São José. Conforme a biografia, costumava dizer: 'Para nós é suficiente qualquer barraco, mas para Deus não deve ser assim!'.
Ele não chegou a ver a conclusão do projeto. João Crippa morreu em 1º de agosto de 1941, em Três Lagoas, aos 79 anos. A atual Igreja São José foi construída posteriormente, e seus restos mortais estão guardados no interior do templo, onde há também um busto do padre e nas paredes, fiéis registram bênçãos atribuídas ao salesiano.
Beatificação – A possibilidade de reconhecer oficialmente a santidade de João Crippa começou a ser discutida publicamente em março de 2024. Na ocasião, o cardeal Ángel Fernández Artime, então reitor-mor dos salesianos, visitou o mausoléu do sacerdote na Igreja São José e conversou sobre a abertura do processo.
A partir da abertura do inquérito diocesano, a trajetória do religioso será examinada dentro das regras da Igreja Católica. O procedimento envolve a coleta de documentos e testemunhos para avaliar se existem fundamentos para o reconhecimento de suas virtudes heroicas.
Caso a investigação avance, o material poderá ser encaminhado ao Vaticano para as etapas seguintes. No processo habitual de beatificação, também é necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à intercessão do candidato. Para a canonização, normalmente é exigido outro milagre, ocorrido após a beatificação.
Foi esse caminho que levou Carlo Acutis aos altares. O jovem italiano, morto em 2006, aos 15 anos, teve um milagre reconhecido a partir da cura do garoto da Capital e outro relacionado à recuperação de uma jovem na Itália.
Cerimônia – A abertura solene do inquérito está marcada para 20 de outubro, das 18h às 18h40, na Paróquia São José. A sessão contará com a presença do postulador da causa, doutor Paolo Vilotta, de Roma, na Itália.
Às 19h, será celebrada uma missa em ação de graças, presidida pelo arcebispo metropolitano de Campo Grande, Dom Dimas Lara Barbosa, com a participação de Dom André Alves dos Santos, presidente da Academia Brasileira de Hagiologia, da Arquidiocese de São Paulo.
A programação é aberta à comunidade, na Rua Pedro Celestino, 1.446, no Centro de Campo Grande.
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