Produção de tilápia em MS vai do filé à indústria de couro e biomateriais
Comissão tem até 28 de agosto para concluir se tilápia é espécie invasora, o que pode comprometer produção
| KAMILA ALCâNTARA / CAMPO GRANDE NEWS
A discussão sobre o futuro da tilápia como espécie exótica invasora está longe de envolver apenas o peixe servido no almoço. Em Mato Grosso do Sul, ela alcança uma cadeia que vai da produção de alimentos ao aproveitamento de pele e resíduos e colocou o Estado entre os principais produtores e exportadores do País.
Em 2025, Mato Grosso do Sul produziu 38,7 mil toneladas de tilápia, segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura Peixe BR 2026. A espécie respondeu por mais de 95% das 40,62 mil toneladas de peixes de cultivo produzidas no Estado.
O número ajuda a dimensionar o que está em jogo enquanto a Conabio (Comissão Nacional de Biodiversidade) discute os critérios para definir quais espécies serão classificadas como exóticas invasoras no Brasil.
Em maio, a Conabio decidiu o adiamento por 90 dias a decisão sobre a lista, que poderia incluir a tilápia, prazo que vence em 28 de agosto. Em vez de aprovar imediatamente a relação de espécies, a comissão criou um grupo de trabalho para estabelecer critérios técnicos para a classificação.
Proposta prevê tratamento diferente conforme as características de cada espécie, inclusive separando aquelas sem interesse socioeconômico das que possuem cadeia produtiva consolidada. A classificação como invasora também não significa, automaticamente, proibição do cultivo, segundo o MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima).
Ainda assim, a discussão preocupa uma atividade que ganhou peso econômico em Mato Grosso do Sul.
Quase todo peixe de MS - A piscicultura sul-mato-grossense cresceu apenas 0,3% entre 2024 e 2025, mas manteve o Estado na oitava posição nacional na produção total de peixes cultivados. Das 40,62 mil toneladas produzidas, 38,7 mil foram de tilápia, 1,8 mil de espécies nativas e apenas 120 toneladas de outros peixes. O próprio anuário avalia que o avanço da atividade em Mato Grosso do Sul está relacionado à combinação de incentivos fiscais, melhorias logísticas e adoção de tecnologias de manejo. Ao mesmo tempo, aponta a necessidade de ampliar a infraestrutura, principalmente para processamento do pescado.
Nos viveiros escavados, Dourados lidera, com 758 hectares destinados à produção, seguido por Itaporã, com 320 hectares; Mundo Novo, 211; Sidrolândia, 172; e Rio Brilhante, 159 hectares.
Nos tanques-rede, o mapa muda. Aparecida do Taboado aparece na primeira posição, com 1.154 estruturas, seguida por Paranaíba, com 479, e Três Lagoas, com 72.
Parte dessa produção atravessa a fronteira brasileira. Mato Grosso do Sul foi o terceiro maior exportador de tilápia do Brasil em 2025, atrás somente de Paraná e São Paulo.
As vendas sul-mato-grossenses ao exterior alcançaram US$ 10,7 milhões, equivalentes a 19% das exportações brasileiras da espécie. O Paraná respondeu por 50%, com US$ 28 milhões, e São Paulo por 29%, com US$ 16 milhões.
A importância do mercado externo fica ainda mais evidente quando se olha para o País. A tilápia respondeu por 94% das exportações brasileiras da piscicultura em 2025, movimentando US$ 56,6 milhões.
Os Estados Unidos permaneceram como principal comprador. Somente o mercado norte-americano adquiriu US$ 52 milhões em tilápia brasileira no ano passado.
Os produtos de maior valor agregado ganharam espaço. Os filés frescos movimentaram US$ 41 milhões em 2025, crescimento de 12% em relação ao ano anterior. Já as exportações de filé congelado avançaram 421%.
Do filé ao curativo - Mas a cadeia econômica não termina quando o filé deixa o frigorífico.
Partes da tilápia que durante muito tempo foram tratadas apenas como resíduos ganharam aplicações industriais e tecnológicas. A pele pode ser curtida e utilizada na produção de artigos como bolsas e acessórios. Também é estudada e utilizada como biomaterial, inclusive em curativos e tratamentos de queimaduras.
Em Mato Grosso do Sul, pesquisas também já buscaram transformar pele e escamas do peixe em biofilmes destinados a embalagens de alimentos. Outros resíduos do processamento podem ser aproveitados para obtenção de óleo, farinha e derivados.
É justamente essa capacidade de aproveitar diferentes partes do peixe que amplia o alcance econômico da tilapicultura. O que começa no tanque pode terminar no supermercado, no mercado externo ou como matéria-prima de outro setor.
O Anuário Peixe BR aponta que a cadeia sul-mato-grossense ainda tem espaço justamente para avançar nessa etapa. Segundo a publicação, falta infraestrutura suficiente para acompanhar a expansão da atividade, especialmente na área de processamento.
A discussão ambiental aparece no próprio anuário como uma das variáveis que devem influenciar o mercado em 2026. Em análise sobre preços e perspectivas para a atividade, o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) afirma que a concorrência com tilápia importada e as discussões regulatórias sobre a classificação da espécie como invasora continuarão sendo pontos de atenção.
Segundo a publicação, esses fatores podem influenciar “decisões de investimento e a dinâmica de oferta ao longo do próximo ano'. No anuário, a GenoMar Genetics Brasil, que mantém unidades de produção e distribuição de alevinos em Mato Grosso do Sul e outros quatro estados, afirma esperar crescimento acelerado da piscicultura em 2026.
A empresa cita como perspectivas a expansão da área produtiva e o aumento da capacidade de abate, além da “consolidação da tilápia como proteína relevante no portfólio da empresa'.
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