Campo aposta em novo sorgo gigante para garantir alimento ao rebanho
Cultivar combina rebrota vigorosa, ciclo curto e uso múltiplo na alimentação animal e energia
| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS
Uma nova aposta da pesquisa agropecuária brasileira chega ao campo com potencial para impactar diretamente a pecuária nacional. Desenvolvido em parceria entre a Embrapa e a iniciativa privada, o híbrido de sorgo forrageiro gigante BRS 662 — comercializado como LAS6002F — surge como alternativa para ampliar a produção de alimento animal em um cenário de clima mais instável e custos crescentes no setor.
A nova cultivar combina precocidade, alto rendimento e estabilidade produtiva, características consideradas estratégicas para produtores que dependem de volumoso de qualidade ao longo do ano. O material pode ser cultivado tanto na primeira quanto na segunda safra, mantendo desempenho consistente em diferentes sistemas de produção.
Alta produtividade e ciclo curto
Um dos principais diferenciais do híbrido é o potencial produtivo. Em condições adequadas, o sorgo pode ultrapassar 80 toneladas de forragem por hectare em apenas um corte, com ciclo de até 125 dias. Após a colheita, a planta ainda apresenta forte capacidade de rebrota, podendo alcançar até 60% da produção inicial, o que reduz custos e amplia a eficiência do uso da área.
Com plantas que atingem entre quatro e cinco metros de altura, o material foi desenvolvido para suportar o porte elevado sem comprometer a estabilidade. A tolerância ao acamamento — quando a planta tomba por vento ou excesso de peso — é apontada como um dos avanços genéticos mais relevantes.
Além disso, o híbrido apresenta boa sanidade frente a doenças fúngicas consideradas críticas para a cultura, como antracnose, helmintosporiose e cercosporiose, fatores que frequentemente limitam a produtividade em lavouras comerciais.
Forragem, energia e novos usos
O sorgo gigante foi pensado para múltiplas aplicações. A forragem produzida possui elevada concentração de celulose e hemicelulose e baixos teores de lignina, combinação que favorece a digestibilidade na alimentação animal e melhora a qualidade da silagem.
O material também pode ser utilizado para produção de biogás e cogeração de energia, ampliando as possibilidades econômicas da cultura dentro das propriedades rurais.
Mercado impulsionado pelo tamanho do rebanho
O lançamento ocorre em um momento de expansão do sorgo no país. A cultura tem ganhado espaço como alternativa ao milho, principalmente em regiões sujeitas a períodos de seca, graças à maior tolerância ao estresse hídrico.
O potencial de mercado é diretamente ligado ao tamanho da pecuária brasileira. Com um rebanho superior a 238 milhões de cabeças de gado, a demanda por volumoso é crescente e ainda pouco mensurada no caso do sorgo forrageiro, diferentemente do que ocorre com grãos tradicionais.
Segundo representantes do setor, a nova cultivar busca justamente profissionalizar esse segmento, aproximando o modelo de comercialização ao já consolidado em culturas como milho e soja, com sementes vendidas por número de unidades e não mais por peso.
Produção inicial e expansão
Na safra de estreia, foram produzidas cerca de 10 mil sacas de sementes, distribuídas em diferentes regiões do país e também destinadas à exportação. A expectativa é ampliar rapidamente a oferta e atender mais de 30 mil hectares de plantio já no próximo ciclo agrícola.
As sementes chegam ao produtor com tratamento industrial contra pragas e doenças, e o manejo recomendado inclui análise de solo, monitoramento de insetos durante o desenvolvimento vegetativo e proteção foliar para garantir maior qualidade da silagem.
Sorgo ganha protagonismo
O avanço do sorgo reflete uma mudança silenciosa na agricultura brasileira. Com eventos climáticos mais frequentes e necessidade crescente de eficiência produtiva, culturas resilientes passam a ocupar espaço estratégico dentro dos sistemas agropecuários.
Para especialistas, o surgimento de híbridos mais produtivos e adaptáveis reforça o papel da genética e da pesquisa pública como motores da competitividade no campo — e indica que o sorgo, antes visto como alternativa secundária, pode assumir posição central na segurança alimentar da pecuária nacional.
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