Não silenciem as mulheres

Leia o artigo de opinião

| CRISTIANE DA COSTA CARVALHO*


Liliane de Souza Bonfim Duarte, de 51 anos, é a quinta vítima de feminicídio do ano de 2026 em Mato Grosso do Sul.

Vejo sua foto na internet na primeira sexta-feira do mês de março de 2026, quase véspera do dia internacional da mulher, em 8 de março.

Nessa foto, Liliane tem os lábios pintados de vermelho, um colar de pérolas, os cabelos cacheados presos, mas o rosto magro tem um olhar triste, um semblante sofrido. Seu assassino e marido era bombeiro militar, um servidor público estadual. Penso que quando aprovado no concurso público para o cargo foi submetido a avaliações físicas e psicológicas, por exigência da lei. Isso não preveniu que, anos depois, matasse brutalmente a mulher e ferisse os próprios filhos. 

Eu prefiro uma outra foto de Liliane, que vi em outra página virtual: ela está sorrindo, com os cabelos soltos. Parece feliz. Parece viva.

As imagens de Liliane me fazem lembrar de um trecho do livro Menino de Engenho, de José Lins do Rego: “O seu destino fora cruel: morrer como morreu, vítima de um excesso de cólera do homem que tanto amara; e depois, ela cheia de pudor e de recato, a encher as folhas de sensação com o seu retrato, com histórias mentirosas de sua vida íntima”.

No enredo da ficção, a morte da mãe do personagem principal é contada para contextualizar por que motivo ele foi morar no engenho do avô. Na história, o pai assassino não é preso, mas enviado a um manicômio. Uma obra que retrata a realidade brasileira e pode inspirar debates tão necessários.

Esse livro, clássico da literatura nacional, foi escrito em 1932, mas bem que poderia descrever o caso da sul-mato-grossense Liliane, em 2026, ou de Ângela Diniz, uma mulher morta em 1976, retratada em podcasts e minisséries recentes da televisão. A morte desta última provocou, no início dos anos de 1980, época do segundo julgamento do assassino, uma mudança na tese da “legítima defesa da honra”, invocada pelos homens covardes daquela época.

Na semana de mais um dia internacional da mulher, os noticiários trazem casos de estupro, feminicídio, violência e agressão, contra meninas e mulheres.

Há algumas semanas um homem de uma cidade do interior do Estado de Goiás matou os filhos e a si próprio supostamente para se “vingar” de uma traição da esposa; nas redes sociais, ela, a sobrevivente, foi julgada e culpabilizada por homens e mulheres, como se tivesse uma parcela de responsabilidade por esta insanidade. Mas foi também acolhida, e abraçada. 

Em outro caso recente, também de grande repercussão, uma menina de 12 anos foi considerada legalmente capaz para “conviver” de forma conjugal com um homem adulto, que lhe tirara da miséria e teria com ela constituído “família”. A condenação de estupro foi flexibilizada num Tribunal de Justiça por homens que deveriam cumprir e fazer cumprir as leis criadas para proteger meninas e mulheres.

Também em fevereiro de 2026, uma freira idosa e acamada foi estuprada e morta dentro do convento em que residia, no Paraná. Basta pesquisar na internet casos recentes de violência sexual, contra mulheres, para localizar relatos de estupros coletivos ocorridos desde uma aldeia indígena de Dourados até o bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. 

A violência se expande e se estende para além das fronteiras da pobreza, da idade ou da vulnerabilidade social, pois está vinculada ao sexo biológico feminino. As mulheres no Brasil de hoje ainda vivem experiências desafiadoras. Não bastasse a violência física de maridos, companheiros, filhos, pais, estranhos, são coagidas a redefinir sua própria condição.

Uma brasileira chamada Isabela Cepa foi acolhida em um país europeu como refugiada política no ano de 2025. A razão: respondia a um processo judicial por transfobia porque no ano de 2020, nas eleições municipais de São Paulo, reproduziu, em uma rede social, um comentário aleatório de que a deputada mais votada, que se identificava como mulher trans, era um homem. Para essa ativista, homens que na vida adulta se declaram mulheres não compartilham a mesma experiência de opressão. Uma opinião lúcida, que não poderia ser criminalizada. Curioso que homens expressaram a mesma opinião e não sofreram perseguição na mesma dimensão que essa mulher... 

A presença de homens que se reconhecem como “mulheres-trans” nos esportes femininos tem redefinido competições. Um time de futebol de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, se recusou a jogar contra um outro time que tinha entre suas atletas uma mulher “trans”. As atletas foram estigmatizadas como “transfóbicas”.

Afirmar fatos biológicos não é transfobia; discutir políticas públicas com base em sexo biológico não implica discriminação de pessoas ou categorias, é apenas uma necessidade histórica, decorrente da experiência de submissão das mulheres ao longo da história e de aspectos científicos.

A relatora especial da ONU sobre violência contra meninas e mulheres, Reem Alsalem, tem alertado, no último ano, que não se pode proteger o que não se pode definir, por isso a urgência de repudiar que se afaste o marcador “sexo biológico” do debate político. Graças à luta de muitas pessoas – e muitas mulheres, hoje podemos votar, concorrer às eleições, trabalhar, dirigir veículos e fazer escolhas com (relativa) liberdade. Tanto foi conquistado, de fato, mas tanta coisa permanece igual, ou pior. Meninas e mulheres continuam vulneráveis e ainda precisam disputar espaços com pessoas que tentam redefinir a própria condição feminina. 



Uma das finalidades da criação de datas comemorativas é demarcar socialmente eventos ou episódios históricos importantes. Por isso fixar essas datas é relevante para provocar questionamentos – e mudanças. Uma das mudanças que eu proponho, neste momento, é escutar; promover um diálogo verdadeiro para apurar quais as prioridades da maioria das mulheres, em áreas como segurança, saúde e trabalho, além de parar de tentar silenciar a nossa voz ou reduzir nossa condição humana à famigerada definição de “pessoas que gestam”. A mulher dispensa sufixos ou prefixos.

Diante de tantas propagandas e manifestações pelo “nosso dia” e confrontada pelo “mundo real”, recordo uma antiga e conhecida poesia norte-americana de Robert Frost, chamada “Minor Bird” ou “um passarinho”, em livre tradução. Nela, o poeta está incomodado e irritado com o “barulho” provocado pelo canto de um pássaro. No final ele reflete, contra sua própria inquietação, que é claro que deve haver alguma coisa errada em querer silenciar qualquer canção.  Pego emprestada a frase e digo: deve haver alguma coisa errada em querer silenciar qualquer mulher.

Epílogo: acabei de escrever o texto no final do dia 8 de março; em seguida, ao ler o noticiário pela internet, descobri a sexta vítima de feminicídio em Mato Grosso do Sul, no ano de 2026. Um silêncio que entristece, e revolta.

*Procuradora do Estado de Mato Grosso do Sul em Dourados  

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