Do Canadá à Patagônia: Pantanal vira parada estratégica para aves migratórias
Especialistas do mundo inteiro se reúnem na Capital para discutir proteção de animais que cruzam fronteiras
| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS
Entre lagoas que refletem o céu e campos alagados que parecem não ter fim, o Pantanal sul-mato-grossense funciona como uma verdadeira estação internacional da natureza. A cada ano, centenas de espécies cruzam continentes inteiros e encontram na planície pantaneira um refúgio para descansar, se alimentar e seguir viagem.
Esse papel estratégico do bioma colocou Mato Grosso do Sul no centro de um debate global. Campo Grande será sede, entre os dias 23 e 29 de março, da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias da ONU (COP15), encontro que deve reunir entre 2 mil e 3 mil especialistas de cerca de 100 países.
O evento terá como base a chamada Blue Zone (Zona Azul) no Shopping Bosque dos Ipês, com outras atividades espalhadas pela cidade. A conferência é organizada pelas Nações Unidas com apoio do Governo do Estado, por meio da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação).
Uma parada obrigatória no mapa da natureza
O Pantanal não é apenas um espetáculo de paisagens. Com cerca de 150 mil quilômetros quadrados, a maior planície alagável contínua do planeta funciona como um ponto logístico natural para animais em longas jornadas migratórias.
Pesquisadores apontam que 190 espécies de aves migratórias utilizam a região como área de descanso e alimentação. Muitas delas percorrem rotas impressionantes que ligam Canadá e Estados Unidos à Patagônia, no extremo sul do continente.
Estudo conduzido pelos pesquisadores Alessandro Pacheco Nunes e Walfrido Moraes Tomas, da Embrapa Pantanal, mostra que aves aquáticas representam 18% de toda a comunidade de aves registrada em Mato Grosso do Sul, concentradas principalmente no Pantanal e na planície do alto rio Paraná.
Entre os viajantes mais frequentes estão 27 espécies de maçaricos, que fazem uma espécie de escala na região antes de seguir viagem entre o Hemisfério Norte e o extremo sul da América do Sul.
Essas aves chegam de países como Argentina, Chile, Uruguai e do sul do Brasil, permanecem por dias ou semanas e depois retomam a jornada rumo ao norte do continente, passando por países como Colômbia e Venezuela.
Migração que também acontece nos rios
A dinâmica migratória no Pantanal não acontece apenas no céu. Nos rios da região, peixes também realizam deslocamentos sazonais fundamentais para sua reprodução.
Espécies emblemáticas da pesca esportiva e da biodiversidade pantaneira, como o pintado e o dourado, percorrem longas distâncias durante a piracema, movimento natural em que sobem os rios para desovar.
Esse conjunto de fenômenos naturais ajuda a explicar por que o Pantanal é considerado um dos biomas mais preservados do planeta.
Conectividade é chave para sobrevivência
Para especialistas, manter a integridade dos ecossistemas pantaneiros é essencial para garantir que essas rotas migratórias continuem existindo.
Segundo o secretário da Semadesc, Jaime Verruck, preservar ambientes naturais conectados é uma condição básica para a sobrevivência dessas espécies.
“Ao proteger áreas úmidas do Pantanal e remanescentes do Cerrado e da Mata Atlântica, Mato Grosso do Sul contribui diretamente para a segurança das rotas migratórias de aves, mamíferos e peixes que atravessam fronteiras em busca de sobrevivência', afirma.
Hoje, 133 países são signatários da Convenção sobre Espécies Migratórias, tratado internacional que busca unir esforços globais para proteger animais ameaçados que dependem de diferentes territórios ao longo de suas rotas.
Lei do Pantanal reforça proteção
A conservação do bioma também ganhou reforço recente na legislação estadual.
A Lei do Pantanal (Lei Estadual nº 6.160/2023) estabeleceu novas regras de proteção ambiental, incluindo a preservação de salinas e áreas inundáveis, consideradas essenciais para a fauna da região.
A legislação também determina que propriedades rurais mantenham pelo menos 40% da vegetação nativa, além de proteger totalmente áreas conhecidas como landizais, ambientes alagados com vegetação abundante.
Essas medidas ajudam a preservar ambientes que funcionam como verdadeiros “postos de abastecimento' naturais para espécies migratórias.
A onça que cruza fronteiras
Outro símbolo da biodiversidade pantaneira também entrou no radar da cooperação internacional: a onça-pintada.
Embora não realize migrações sazonais como aves ou baleias, o maior felino das Américas depende da conectividade entre habitats de diferentes países para manter populações geneticamente saudáveis.
Por isso, a espécie foi incluída como espécie migratória ameaçada durante a COP14, realizada em 2024.
Segundo a bióloga Bruna Oliveira, da Semadesc, muitas populações de onça ocupam territórios que atravessam fronteiras nacionais, o que torna essencial a cooperação internacional.
“A conectividade entre habitats garante o fluxo gênico da espécie e aumenta as chances de sobrevivência da onça-pintada a longo prazo', explica.
Pantanal no centro do debate mundial
Ao sediar a COP15, Mato Grosso do Sul assume protagonismo em um dos temas mais urgentes da agenda ambiental global: a proteção das espécies que dependem de diferentes países para sobreviver.
No fundo, a mensagem que sai do Pantanal é simples — e poderosa: a natureza não conhece fronteiras.
E proteger essas rotas invisíveis que cruzam céus, rios e florestas pode ser decisivo para o futuro da biodiversidade do planeta.
O que é a COP15 das Espécies Migratórias
A COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) é um encontro global organizado pela Organização das Nações Unidas que reúne governos, cientistas e especialistas em conservação.
O objetivo é discutir estratégias internacionais para proteger animais que dependem de rotas migratórias que cruzam fronteiras entre países, como aves, mamíferos marinhos, peixes e grandes felinos.
Atualmente, 133 países participam da convenção, que busca fortalecer acordos de cooperação para evitar a extinção de espécies ameaçadas.
A edição de 2026 será realizada de 23 a 29 de março em Campo Grande, com expectativa de receber até 3 mil participantes de cerca de 100 países.
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