Morte de Jorge Rafaat completa 10 anos como marco da violência na fronteira
Execução do traficante derrubou lideranças e ampliou crimes na região, aponta PRF
| ANA PAULA CHUVA E HELIO DE FREITAS, DE DOURADOS / CAMPO GRANDE NEWS
Passados exatamente dez anos do assassinato de Jorge Rafaat Toumani, o 'Rei da Fronteira', os reflexos dos mais de 200 tiros de fuzil que ecoaram em Pedro Juan Caballero, cidade separada por uma rua de Ponta Porã, a 313 quilômetros de Campo Grande, ainda ditam as regras da segurança pública em Mato Grosso do Sul. Para quem atua na linha de frente do combate ao narcotráfico, a data não é apenas um marco temporal, mas sim o início de uma era mais violenta no crime organizado.
'A morte de Jorge Rafaat em 2016 é um divisor de águas no que tange o crime organizado. Após a execução, notamos a expansão em toda a faixa de fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai', afirma o inspetor Waldir Brasil, chefe da PRF (Polícia Rodoviária Federal) em Dourados, em entrevista ao Campo Grande News.
De acordo com o chefe do policiamento na região, a morte de Rafaat acabou com uma época de previsibilidade para o Estado.
'Antes da morte de Rafaat, nós sabíamos quem eram as ‘figuras carimbadas’ que comandavam o tráfico de drogas. A partir de 2016, houve a instalação de várias facções na fronteira, aumentaram as lideranças e, consequentemente, houve o aumento da criminalidade. Homicídios, roubos e furtos de veículos, tráfico de drogas e armas se avolumaram nas cidades fronteiriças', avalia o inspetor.
A fronteira mudou
Rafaat foi executado por volta das 18h50 daquele 15 de junho de 2016. Naquela noite, o pânico tomou conta da capital paraguaia. O crime aconteceu no centro da cidade, perto do mercado municipal. Pistoleiros com treinamento militar executavam um plano meticuloso que custou cerca de 1 milhão de dólares aos cofres das facções rivais.
Na ocasião, Rafaat transitava em uma caminhonete Hummer blindada. A ação contou com a participação de cerca de 100 pistoleiros contratados. O 'Rei da Fronteira' estava com cerca de 30 seguranças que reagiram fazendo com que houvesse intenso tiroteio.
A proteção, no entanto, foi inútil contra o armamento de guerra militar utilizado: uma metralhadora antiaérea calibre .50, de aproximadamente 100 quilos, que foi adaptada e amarrada com cordas vermelhas na carroceria de uma Toyota Fortuner.
Os criminosos fecharam as ruas adjacentes e utilizaram bloqueadores de sinal de celular para impedir qualquer pedido de socorro. Foram disparados mais de 200 tiros até que a blindagem da Hummer fosse perfurada. Rafaat foi fuzilado no local e cinco seguranças ficaram feridos.
Segundo a imprensa paraguaia, o ataque ocorreu a apenas 200 metros da Segunda Delegacia de Pedro Juan Caballero. A equipe policial chegou ao local e trocou tiros com os criminosos, mas não foi o suficiente para interceptar o bando.
Os atiradores fugiram a pé, deixando para trás um rastro de destruição e um arsenal de guerra: o fuzil .50, fuzis AK-47, metralhadoras, pistolas 9mm e dezenas de coletes à prova de balas.
Quem era o 'Rei'
Natural de Ponta Porã, Rafaat tinha dupla nacionalidade e se formou em Direito antes de se radicalizar no comércio de Pedro Juan Caballero em 1987. No início dos anos 90, ele se aliou a Luiz Carlos da Rocha, o “Cabeça Branca', montando uma poderosa rede logística para escoar a cocaína da Bolívia e do Peru que entrava no Brasil através da fronteira de MS.
Em 2014, Rafaat chegou a ser condenado pela Justiça Federal brasileira a 47 anos de prisão em regime fechado, além de uma multa de R$ 403,8 mil, em sentença assinada pelo juiz Odilon de Oliveira.
Conforme as investigações jornalísticas, Rafaat barrava o avanço de criminosos brasileiros na Linha Internacional. Para tirá-lo do caminho, desenhou-se uma aliança entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho). O plano foi arquitetado por Elton Leonel Rumich da Silva, o “Galã' - apontado como o mentor que dirigiu a caminhonete com o armamento -, em parceria com o narcotraficante Jarvis Chimenes Pavão, que na época cumpria pena no presídio de Tacumbú, no Paraguai.
O operador da metralhadora .50 foi o carioca Sergio Lima dos Santos, integrante do CV. Ele acabou sendo baleado no rosto pelos seguranças de Rafaat, foi abandonado em um hospital e capturado, recebendo uma condenação de 35 anos de prisão no Paraguai.
Rastro de sangue
A queda de Rafaat reconfigurou a geografia do crime em Mato Grosso do Sul, transformando o estado em um imenso corredor logístico disputado milímetro por milímetro. Logo após a execução, o pacto de não agressão entre as facções brasileiras se rompeu. O PCC declarou guerra ao CV, desencadeando massacres carcerários por todo o Brasil.
Nos meses seguintes à execução, o número de roubos de veículos em MS aumentou significativamente para servir como moeda de troca por drogas. Em dezembro de 2016, criminosos chegaram a invadir uma oficina em Pedro Juan Caballero tentando, sem sucesso, incendiar a icônica caminhonete Hummer fuzilada de Rafaat.
Até mesmo o médico forense paraguaio Marcos Prietto Vera, responsável pela autópsia de Rafaat, relatou em entrevista ao portal que o caso foi o mais emblemático de sua carreira, marcando a transição para um cotidiano em que execuções de 'cano curto' deram lugar a fuzilamentos no meio da rua como mensagens de novas lideranças.
A violência continuou batendo à porta dos aliados do antigo 'Rei' e, em outubro de 2018, Orlando da Silva Fernandes, o “Bomba', ex-chefe de segurança de Rafaat, foi executado de forma parecida com tiros de fuzil no bairro Jardim Autonomista, em Campo Grande.
Nova estratégia
Dez anos depois da tarde em que os tiros de .50 ecoaram pela fronteira, a resposta estatal precisou se modernizar para enfrentar um inimigo que agora atua de forma pulverizada e corporativa. O policiamento rodoviário tradicional já não é suficiente para combater facções que controlam rotas internacionais.
'Para reduzir a criminalidade, os órgãos de segurança pública fortaleceram a integração, realizaram operações interagências, bem como um grande incremento na inteligência policial', finaliza o inspetor Waldir Brasil, mostrando que o combate moderno na fronteira hoje se faz tanto com o cruzamento de dados e asfixia financeira quanto com as apreensões nas estradas.
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