Após boom da celulose, Três Lagoas espera menos "dores" com retomada da UFN3
Moradores apostam em mais empregos e acreditam que a cidade está preparada para crescer com a nova fábrica
| MYLENA FRAIHA E FERNANDA PALHETA, DE TRêS LAGOAS / CAMPO GRANDE NEWS
O anúncio da retomada das obras da UFN3 (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III) reacendeu, entre os moradores de Três Lagoas, uma discussão que mistura entusiasmo e cautela. Se, de um lado, a expectativa é pela geração de empregos e pelo fortalecimento da economia, do outro, há quem tema reviver as 'dores do crescimento' enfrentadas pela cidade durante o boom da celulose.
Nas ruas da cidade de cerca de 143 mil habitantes, o assunto virou tema de conversa nos últimos dias, especialmente após o anúncio oficial na quinta-feira (25), durante cerimônia com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.
Nem todos sabem exatamente o que é a UFN3 ou o tamanho do investimento previsto, mas quase todo mundo ouviu falar que a obra vai voltar e que poderá movimentar novamente a economia local.
Na manhã desta sexta-feira (26), o Campo Grande News percorreu ruas da cidade para ouvir moradores sobre a retomada da fábrica anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um dia antes. Nem todos conheciam os detalhes do empreendimento, mas praticamente todos já tinham ouvido alguém falar sobre a obra.
A autônoma Emilly Cristina Fonte, de 23 anos, é uma das moradoras que ainda não conheciam muitos detalhes sobre a UFN3, mas percebeu que a retomada das obras se tornou um dos principais assuntos da cidade nos últimos dias. 'Todo mundo estava falando sobre isso'.
Mesmo sem acompanhar de perto o andamento do empreendimento, Emilly avalia que o investimento será positivo para os moradores de Três Lagoas. 'Acho que vai gerar mais empregos'.
Para a dona de casa Maria Helena Gonçalves Borges, de 35 anos, a retomada da fábrica de fertilizantes também representa uma oportunidade para quem procura emprego e para quem vive do comércio. O marido dela é comerciante, e a expectativa é de aumento no movimento. 'É positivo para o mercado de trabalho e para o comércio. Vai movimentar tudo', resume.
Mas, para ela, a esperança vem acompanhada de preocupação. Maria Helena acredita que uma nova onda migratória pode trazer desafios para a segurança pública. Na percepção dela, o município já enfrenta aumento da criminalidade e teme que esse cenário se agrave com a chegada de milhares de trabalhadores de outras regiões do país. 'Vai melhorar o mercado de trabalho, movimentar o comércio, mas também preocupa a criminalidade. A cidade já está mais perigosa', afirma Maria Helena.
A fala reproduz uma percepção recorrente nas ruas. Muitos moradores associam o aumento da violência à chegada de trabalhadores de outros estados, especialmente das regiões Norte e Nordeste - visão que reflete um sentimento presente em parte da população, embora não estabeleça, por si só, relação comprovada entre migração e criminalidade.
Se, para alguns, a lembrança desperta medo, para outros ela serve de aprendizado. Há 18 anos morando em Três Lagoas, o motorista Erotildes Manoel Fernandes acompanhou de perto o período em que a cidade recebeu as primeiras fábricas de celulose. Na época, ele havia acabado de deixar Rio Verde de Mato Grosso para buscar melhores oportunidades.
Erotildes lembra de uma cidade que praticamente precisou aprender, às pressas, a lidar com um crescimento que não esperava. 'Em 2007 não tinha hotel suficiente, não tinha logística, as ruas eram um caos. Hoje conseguiram organizar tudo. Os bairros melhoraram, a infraestrutura cresceu', explica.
Na avaliação dele, Três Lagoas está muito mais preparada para receber um novo empreendimento desse porte. 'A cidade já viveu o desespero dela. Hoje está preparada para qualquer empresa que venha', comenta Erotildes.
Para ele, quem tende a sentir mais os efeitos da expansão são municípios vizinhos, como Bataguassu e Inocência, que também vivem grandes investimentos industriais. 'Quem vai sofrer um pouquinho agora é Bataguassu e Inocência. Três Lagoas já passou por isso', opina o morador.
A principal expectativa da família é pelos empregos. Pai de três filhos, Erotildes conta que os mais velhos, de 27 e 25 anos, já acompanham as notícias da retomada da UFN3 pensando nas oportunidades que poderão surgir. 'É o sonho da UFN3 sair do papel. Tenho filhos jovens e quero que eles tenham oportunidade de conseguir um bom emprego.'
Ao lado dele, a esposa, a podóloga Ana Rita Souza, de 46 anos, compartilha do otimismo, mas faz uma ressalva. Ela acredita que o desenvolvimento sempre traz consequências. 'Vai gerar emprego, desenvolvimento para a cidade, mas também pode trazer problemas porque vem muita gente de fora e também pode encarecer tudo.'
Mesmo assim, considera que o saldo costuma ser positivo. 'Quando nós chegamos aqui, pegamos justamente o boom da celulose. A cidade cresceu muito. Melhorou comércio, saúde, infraestrutura. A gente viu isso acontecer'.
Novas oportunidades — A retomada da UFN3 também desperta expectativa entre quem chegou recentemente à cidade justamente atraído pelas oportunidades de trabalho que a região tem oferecido.
O operador de máquinas José Carlos Monteiro dos Santos, de 33 anos, e a copeira Francielle Oliveira, de 28, vieram de Teresina (PI) há cerca de dois anos, depois que a mãe dele conseguiu emprego em Três Lagoas. Aos poucos, todos os sete irmãos também se mudaram para Mato Grosso do Sul.
Eles contam que ainda não conheciam muitos detalhes sobre a fábrica, mas perceberam que o assunto dominou as conversas na cidade nesta semana. Para eles, a expectativa é que a retomada das obras da fábrica de fertilizantes traga mais oportunidades de emprego.
Conforme noticiado anteriormente, a Petrobras estima investimento de R$ 5 bilhões para concluir a unidade, cuja construção foi interrompida há cerca de 12 anos, quando já estava aproximadamente 85% concluída. Durante as obras, a expectativa é gerar cerca de 8 mil empregos. A estatal também anunciou recursos para qualificar 1.200 trabalhadores em parceria com o Senai e institutos federais.
Quando entrar em operação, prevista entre 2028 e 2029, a fábrica deverá elevar a produção nacional de fertilizantes de cerca de 20% para 35% da demanda brasileira, abastecendo principalmente o agronegócio do Centro-Oeste, além de São Paulo e Paraná.
Outra realidade — Se a população divide expectativas e receios, a Prefeitura afirma que Três Lagoas vive hoje uma realidade completamente diferente da registrada durante o primeiro boom industrial.
Segundo o prefeito Cassiano Maia (PP), a cidade acumulou experiência suficiente para receber novos investimentos. 'Três Lagoas já viveu isso no início da Suzano, na segunda linha da Suzano e na Eldorado. Hoje temos estrutura e experiência'.
O prefeito cita como exemplos a ampliação da rede hospitalar, a redução da fila da educação infantil, novos conjuntos habitacionais, expansão da rede hoteleira e investimentos em infraestrutura. 'Nós temos praticamente três hospitais, dois atendendo pelo SUS, praticamente fila zero na educação infantil e seguimos investindo em moradia'.
Cassiano avalia que também houve mudança na maneira como a população enxerga a chegada de trabalhadores de outras regiões. 'Antes existia uma preocupação maior com pessoas vindo de fora. Hoje, Três Lagoas vive praticamente uma situação de pleno emprego. O sentimento é diferente. A população entende que o desenvolvimento faz bem para a cidade'.
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